A poucos dias da 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), que será realizada entre 9 e 20 de novembro, em Antalya, na Turquia, a adaptação aos eventos climáticos extremos volta ao centro das discussões internacionais. Entre os temas em debate estão a resiliência das cidades, a proteção da infraestrutura e a necessidade de transformar compromissos climáticos em ações concretas. No Brasil, essa discussão passa por um desafio cada vez mais presente na rotina dos municípios: como identificar antecipadamente condições de risco e preparar respostas a chuvas intensas, alagamentos e deslizamentos.
Um estudo do Cemaden, da USP e do Inpe, publicado este ano na revista Environmental Research Letters, analisou 59.658 desastres relacionados à água registrados no Brasil entre 1991 e 2024. No período, 91,5% dos 5.570 municípios relataram ao menos uma ocorrência, e os eventos deixaram pelo menos 4.774 mortos.
A adaptação climática envolve mais do que obras de drenagem e contenção de encostas. Também exige conhecimento sobre as condições ambientais de cada território, identificação de áreas vulneráveis e acompanhamento de fatores que podem indicar situações de perigo. Nesse contexto, o monitoramento contínuo de chuvas, níveis de rios e condições do solo fornece informações importantes para o planejamento urbano e a atuação de órgãos responsáveis pela prevenção de desastres.
Para Marcio Malewschik, cofundador da Plugfield, empresa de tecnologia especializada em monitoramento climático e ambiental que integra o Grupo Pumatronix, um dos desafios é aproximar as políticas de adaptação climática da realidade operacional dos municípios.
“Discutir adaptação climática é fundamental, mas precisamos transformar esse debate em ações práticas. As cidades precisam conhecer seus pontos de vulnerabilidade e acompanhar o que acontece nesses locais. Quando temos informações confiáveis sobre a intensidade da chuva, a elevação do nível da água e as condições do solo, conseguimos oferecer aos gestores mais elementos para avaliar riscos e agir antes que uma situação se agrave”, explica.
Embora as previsões meteorológicas sejam essenciais para antecipar condições climáticas em uma região, o comportamento da chuva e seus impactos podem variar entre bairros, encostas e áreas próximas a cursos d’água. Por isso, o acompanhamento de pontos específicos complementaos dados meteorológicos e contribui para decisões mais direcionadas.
Entre as tecnologias utilizadas nesse processo estão estações meteorológicas, que registram informações como volume e intensidade da chuva, temperatura, umidade, pressão atmosférica e vento. Sensores de nível da água também permitem acompanhar alterações em rios, córregos e outros pontos sujeitos a alagamentos.
a Plugfield desenvolve e fabrica soluções como a Plugstation Sônica Pro e o Plugsensor Nível de Líquido Sônico, voltadas ao monitoramento ambiental em áreas urbanas e regiões vulneráveis. A primeira permite acompanhar condições meteorológicas em pontos estratégicos, enquanto o segundo utiliza tecnologia ultrassônica para medir variações no nível da água. As informações coletadas podem ajudar gestores a acompanhar mudanças nas condições locais e subsidiar decisões relacionadas à prevenção de alagamentos e ao acionamento de equipes responsáveis pela resposta a emergências.
Em áreas com risco de deslizamentos, equipamentos como piezômetros e inclinômetros também podem contribuir para o acompanhamento de condições relacionadas à presença de água no solo e à movimentação de encostas. A análise conjunta desses dados permite ampliar o conhecimento sobre áreas vulneráveis e apoiar medidas como inspeções, interdições preventivas e mobilização de equipes técnicas.
“O monitoramento não impede que uma chuva intensa aconteça, mas pode ajudar a compreender como ela está afetando determinado local. A diferença está em ter informações para avaliar a necessidade de uma intervenção, em vez de depender apenas da identificação do problema quando os impactos já são visíveis”, acrescenta Malewschik.
A COP31 terá entre seus eixos de ação o fortalecimento da resiliência de cidades, infraestrutura e recursos hídricos. A agenda reforça a importância de combinar políticas públicas, investimentos e tecnologias para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas.
Para os municípios brasileiros, transformar essas diretrizes em medidas práticas envolve identificar áreas prioritárias, estabelecer protocolos de resposta e integrar as informações ambientais ao trabalho de órgãos como a Defesa Civil. O uso de sensores, por si só, não elimina riscos, mascontribui para que as equipes acompanhem situações críticas e tenham mais subsídios para decidir quando agir.
“Não basta instalar equipamentos e coletar dados. É preciso que essas informações façam parte de uma estratégia de prevenção, com responsabilidades definidas e procedimentos para diferentes situações de risco. A adaptação climática acontece quando o conhecimento sobre o território se transforma em decisões capazes de proteger pessoas e infraestrutura”, conclui Malewschik.
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